E os 40 bate na porta…

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Há menos de 10 dias de completar 40 anos, fui arrebatada por uma instantânea tristeza e por inúmeras reflexões. Por mais que tento repetir o mantra de que é mais um ano e apenas um número, e o que conta é sua espiritualidade e ânimo, é inevitável não pensar no tempo: no que passou e no que está por vir.

Quanto mais vivemos, mais próximo da finitude estamos. E não falo da finitude plena, mas de todas as pequenas perdas de possibilidades, de ilusões, de planos…Aquilo que imaginávamos quando éramos adolescentes e compartíamos com as amigas (pelo menos na minha adolescência no interior, onde o feminismo era apenas um tópico dos livros de história): se formar, trabalhar, casar, ter filhos e uma linda casa…

Sempre me considerei um pouco avessa as esses ritos e ambiciosa demais para ficar em um mesmo lugar, porém não me privava de ansiar pelo “padrão”. Avancei muito durante esses 40 anos: sai de casa aos 17, consegui minha independência financeira aos 19, fiz minha primeira viagem a Europa aos 20, cursei 2 faculdades e várias pós graduações, mudei de empregos, de namorados, de residências, de amigos, de profissão, rodei o mundo, conheci culturas e tradições, recomecei e me reinventei muitas vezes.

Na contramão, abdiquei do casamento, de filhos, da compra de um imóvel, de uma carreira sólida e apaixonante e dos abraços diários da família e dos amigos. Cá estou, aos (quase) 40 anos, longe de casa, mas cumprindo o sonho de morar na Europa, vivendo relações multiculturais e galgando meu espaço no mercado de trabalho. Voltei a compartilhar um apartamento com outros desconhecidos e com isso tentar encontrar uma identidade nesse espaço e também a conviver com as ausências.

Voltando aos planos da adolescência, posso dizer que cumpri uma boa parte deles, mas não imaginava que meu momento atual seria esse. Queixo-me, talvez de algumas coisas, mas tento sempre olhar os ganhos, talvez por esta característica me sinta desprendida da cronologia. Porém é impossível não abater-se pelo E SE…

E se eu estivesse no Brasil, estaria planejando uma super festa para minha família e amigos e outra super viagem à Ásia, pois estaria trabalhando intensas horas semanais para isso, com curtos descansos após a árdua tensão do trânsito e insegurança paulistana.

Estaria desfrutando de um bom vinho e deliciosos queijos com meu flatmate da vida em um apartamento confortável, cheio de “mimimis” com a nossa cara, mas esperando a ligação de alguém me convidando pra jantar e declarando amor eterno.

E se pudesse voltar atrás e mudar a ordem das coisas, estaria ouvindo os pedidos de meus filhos enquanto sentados ao sofá em frente a TV e combinando o churrasco do próximo final de semana com a família, após ouvir a amiga falar o quão lindo é a ilha de Seychelles e só imaginando o seu privilégio.

Enfim…a balança da vida que sempre pesa prós e contras, tentando se aproximar do equilíbrio.

É claro que os 40 anos me trouxe maturidade, rabugice, serenidade, desprendimento, descrenças, ânimos e desânimos,  desejos realizados e frustrações. Talvez seja um tempo de planejar menos e sentir mais. Do imediatismo produtivo e da lágrima curta. De parar de contar as horas e olhar mais o sol que entra pela janela. De ter a certeza que as coisas são como são e que tudo tem seu fim. Momento de aceitar o que é e o que tem. Tolerar, ser leve, sorrir e deixar pra lá…

Dizem que aos 40 anos, somos mais confiantes, mais donas de nossos passos e que nos amamos mais. Não nego que deixei pra trás muitas preocupações vazias, mas ainda existe em mim uma insegurança e uma vontade de ser guiada por outrem. Não deixei de ser frágil, apenas sigo em frente diante da dor.

Tenho mais rugas, mais cabelos brancos, mais flacidez, sou mais real e sedutora. Aprendi a entender que cada pessoa tem um papel em minha vida e assim desgostar menos dos que me feriram e ter a certeza que não me faltará quem me ame de verdade. Me desprendi de jogos relacionais e expresso todos os meus sentimentos sem pensar e sem medir, com isso sou mais carinhosa e cuidadosa.

E quando os 40 bate a porta, abro desfrutando de uma série na TV, ao lado de um homem 17 anos mais jovem, que já me amou antes mesmo de me beijar e que me faz gargalhar a cada dia. Abro desejando buenos dias aos meus vizinhos e sigo à estação de metrô olhando o mar. Abro com a mesma tranquilidade com que caminho pelas ruas durante a madrugada após suar ao som de “Despacito”. Abro ao ser imensamente feliz ao ver uma promoção da Ryanair. Abro às saudades do que vivi e também do que não as pude. Abro a porta a mais um dia! Rumo aos 40…


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6 comments

  1. Marcela, que texto mais lindo!
    Me identifiquei tanto, tanto! Mudar do Brasil foi um marco importantissimo na minha vida. E hj lendo seu artigo, me lembrei de algo que voce me falou ha um tempo atras: resolver o passado e deixar ele por la. Tantas vezes penso no “e se”, mas dai me vem o presente do “e se”: “e se eu nao estivesse onde estou hoje, sera que estaria tao realizada e feliz?”

    Amei seu texto!
    Quero mais! 🙂
    Feliz countdown to 40!

    Beijo,
    Dani

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