A importância do trabalho voluntário na Espanha

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Ser voluntário implica dedicação, comprometimento e desprendimento, pois implicitamente, quando nos dispomos a realizar uma atividade não remunerada que auxilia a desconhecidos, vamos em busca de uma resposta a nossa inquietação interior. Assim, voluntariar-se nos permite a ruptura de prévios paradigmas e, pessoalmente, nos possibilita uma transformação.

Ademais, há uma importância social incontestável, pois é através do trabalho desenvolvido pelos voluntários do terceiro setor, que se  atendem necessidades muitas vezes não supridas pelo Estado, além de garantir o resgate da cidadania.

A palavra voluntariado está unida a ideia de ação solidária, desinteresse e preocupação pelo bem estar coletivo da sociedade em que se vive. Nesse sentido podemos dizer que a solidariedade é um valor de grande importância para a sociedade espanhola, pareados ao valor de liberdade. Com isto, o que encontramos aqui é um alto índice de credibilidade na atuação das ONG’s (Organizações Não Governamentais), com 44,5% da população, segundo um levantamento divulgado pelo Ministério da Saúde, Política Social e Igualdade espanhol em 2012.

Porém, a prática é um pouco divergente, pois a confiança demonstrada não é partilhada com o número efetivo de voluntários existentes. Segundo o mesmo levantamento, 34% dos cidadãos da Comunidade Européia realizam trabalhos voluntários, mas entre os espanhóis este índice cai para 18%, o que não descaracteriza a importância do voluntariado no país. A cifra aqui é de 800 mil voluntários espalhados em mais de 28 mil entidades com uma dedicação média ao redor de 10 horas semanais.

Toda essa breve explicação é para dizer que faço parte da estatística e mais do que isso, além dos motivadores de altruísmo e solidariedade, é uma maneira de ocupar o tempo livre, ambientar-me com a cultura e o comportamento dos espanhóis (no meu caso dos valencianos), construir rede social e, acima de tudo, aprender.

No meu segundo mês de Valência comecei a buscar emprego, porém apesar da economia espanhola demonstrar uma ascensão, a taxa de desemprego é ainda um dos grandes desafios do Governo. Se está difícil para um local, não seria diferente para um estrangeiro (mesmo com cidadania) assim, enquanto permaneço en paro (sem contrato trabalhista), resolvi buscar outras opções e o trabalho voluntário foi a primeira delas.

Era uma voluntária atuante no Brasil, então foi muito prazeroso ocupar-me dessa busca, ainda mais quando percebi que aqui na Espanha, o voluntariado é valorizado e com grande oferta em entidades com diversas finalidades.

Outro ponto positivo foi encontrar um site dedicado ao trabalho voluntário que compila os projetos e vagas oferecidas pelas ONG’s. Assim, você tem a opção de cadastrar seus dados e aplicar-se para vagas de seu interesse. Funciona como uma banco de dados de recursos humanos. No site da Fundação Hazloposible, também há vagas de empregos  remunerados e voluntariado em entidades não locados na Espanha, como em outros países europeus, africanos, americanos e asiáticos, todas coordenadas por organizações com sede por aqui.

Assim, foi através deste site que descobri as duas instituições que participo atualmente aqui em Valência. Em fevereiro fui chamada pela Associação Auxilia, que tem como objetivo proporcionar suporte à pessoas com deficiência física e cognitivas e promover atividades para o desenvolvimento e bem estar dos assistidos. A minha tarefa como voluntária é assessorá-los em atividades de lazer, realizadas quinzenalmente aos finais de semana. Já participei de peças de teatro e dança, feiras e festivais gastronômicos, equoterapia e um acampamento de 4 dias no feriado da Páscoa, que aliás foi uma experiência única.

Estávamos em 28 pessoas, sendo um voluntário responsável para cada usuário em período integral, haja vista que a maioria dos atendidos possuem tetraplegia e paralisia cerebral, impossibilitados de exercer grande parte das atividades de vida diárias de maneira independente, ou seja, auxiliar na alimentação, na higienização, no vestuário e claro, na mobilidade. Por isso, ratifico a palavra desprendimento quando me refiro ao conceito de ser voluntário.

Ainda inquieta, busquei algum projeto para trabalhar com crianças, pois era uma forma de continuar exercendo indiretamente minha profissão de psicóloga infantil e foi então que descobri a Fundación Por La Justicia, que trabalha para a promoção e defesa dos Direitos Humanos na Espanha e em países menos favorecidos da Ásia, África e América Latina.

O projeto que participo se chama Escola Matinal Nazaret, que consiste em atividades lúdicas à crianças entre 4 e 12 anos, que vivem em risco de exclusão social e frequentam um colégio público valenciano em um bairro considerado violento (claro que para padrões europeus). Atém das atividades, oferecemos café da manhã e lanche às crianças, bem como promover a prevenção e atenção a saúde dentária. Realidade bastante similar a brasileira, em suas devidas proporções.

Outro ponto bacana é que a Espanha tem uma lei de voluntariado especifica e com uma ampla gama de disposições que incluem vários aspectos do trabalho voluntário, entre eles a responsabilidade das organizações em promover formações periódicos a seus colaboradores, além de participar ativamente das discussões e tarefas administrativas. E isso funciona, pois frequento reuniões periódicas em ambas as ONG’s e cursos bastante enriquecedores.

Durante esses 5 meses de trabalho voluntário em Valência, pude descobrir outras facetas de mim, me deparei com a diversidade não apenas individual, mas cultural ao tratarem de um assunto global, mas acima e tudo, encontrei pessoas com os mesmos ideais e afetos humanitários, independente da raça, da nacionalidade e da crença. E é disso que o mundo precisa, portanto “VOLUNTARIEM-SE”.

 

  • O texto original encontra-se disponível no Blog Brasileiras Pelo Mundo, onde sou colunista, juntamente com outras brasileiras incríveis espalhadas pelo planeta.

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