Os corações de Zagreb

Spread the love

É sempre ele, o coração; aquele que dá o alerta mais intenso ao nos aproximarmos da pessoa amada. É ele que desenhamos ao falar ao telefone com aquele que despertou o mais nobre dos sentimentos. Pode ser místico, assombroso, irritantemente pegajoso, mas não há melhor tradução visual do amor que um coração. Não aqueles apresentados pelos cardiologistas em suas palestras repletas de tecnicidade, mas sim a forma obtida com a junção dos indicadores e polegares ao aproximarmos de uma câmera, sabendo que alguém muito especial estará do outro lado.

Agora imagina chegar em uma cidade de um milhão de corações!   Correspondente a sua quantidade de habitantes, Zagreb, capital da Croácia, tem como símbolo um coração bem vermelho. Por todos os lados encontramos o ícone do amor que é também o souvenir mais popular da Croácia.

Souvenir croata – arquivo pessoal

Talvez tanto amor decorra da origem de Zagreb, surgida da junção de dois antigos povos (Kaptol e Gradec) que antes eram inimigos e estrategicamente decidiram deixar suas diferenças de lado para unir-se na metade do século XIX.

Corações feitos de pão de gengibre eram presenteados pelos rapazes às suas amadas no Dia de São Valentim e em datas comemorativas, como sinal de amor e fidelidade. Os corações traziam frases de amor escritas e muitas vezes tinham preso no centro um pequeno espelho ou um papel contendo o verso de alguma música, um poema ou dedicatórias feitas por quem presenteava. Mas por que o espelho? Porque o rapaz ao entregar o presente a amada diz que esta entregando o seu próprio coração e ela, ao ver o seu reflexo saberá que é dona do amor de seu príncipe.

O tempo passa e as tradições mudam, e levam consigo o melhor que há nos corações: hoje quase ninguém os prepara com pão e sim plástico e madeira e os vendem como recordação da cidade que também, paradoxalmente, abriga o Museu dos Corações Partidos, que claro, é dedicado as relações amorosas que chegaram ao fim.

Museu dos Corações Partidos – arquivo pessoal

Não significa o triunfo de uma partida ou a exaltação de uma dor, nascido de muito sofrimento amoroso, mantém um acervo de doação de objetos que simbolizavam a história do casal desfeito.

O museu começou como um projeto plástico com o intuito de abrir espaço para que as pessoas em situação de separação se desprendessem dos objetos que remetiam a relação e aos tempos de corações palpitantes e que agora traziam emoções negativas, assim, ao invés de destruí-los, os ex-casais ao redor do mundo, começaram a doar os objetos para contribuir com o projeto. Atualmente, o museu conta com um acervo fixo de 100 peças, além de outros pares de centenas acumulados durante as exposições itinerantes que realizam, pois em todas as escalas do tour internacional, são coletados símbolos da felicidade quebrada.

Segundo os idealizadores, a exposição segue uma lógica emotiva com núcleos temáticos dedicados ao Desejo e à Luxúria, à Fúria e à Raiva e ao Sofrimento. O museu é constituído por salas brancas e iluminadas por luzes no mesmo tom, em que os objetos estão expostos, acompanhados pelo título e uma narrativa da história do ex-casal. Os protagonistas não estão identificados, intitulando-se apenas com uma letra ou só com o primeiro nome. Draine Grubisic, o artista responsável, considera a empatia como fator principal do tamanho sucesso de público, pois segundo ele, é impossível um ser humano, que tenha passado por uma ressaca sentimental, ficar indiferente a tantas histórias.

Então, diante da cidade de um milhão de corações, de uma tradição romancista e de tantas histórias felizes desfeitas, o que prevalece? Sempre o amor ao encantos histórico-culturais, a um povo simpático e hospitaleiro, as cafeterias repletas de risos atemporais, ao aroma das flores e a uma animada vida.

Mercado de Flores – Zagreb (arquivo pessoal)

**

No site do museu é possível visualizar alguns dos objetos expostos, bem como ler as notas escritas pelos seus antigos donos. Muito interessante!

 


Spread the love

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *