O fio vermelho

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Recentemente participei de uma oficina de arte-terapia em Valência e uma das atividades se deu a partir da lenda do fio vermelho. Segundo uma crença oriental, pessoas destinadas a conhecer umas as outras, tem uma linha vermelha amarrada em seus dedos. Este fio nunca desaparece e fica constantemente amarrado apesar do tempo e da distância. Não importa se tardes a conhecer essa pessoa, tampouco importa o tempo que passarás sem vê-la, nem mesmo se moras do outro lado do mundo, o fio é esticado até o infinito e nunca se romperá.

“Faz muito tempo, um imperador ficou sabendo que em uma das províncias de seu reino vivia uma bruxa muito poderosa, que tinha a capacidade de poder ver o fio vermelho do destino, e ordenou que ela fosse trazida para vê-lo.

Quando a bruxa chegou, o imperador mandou que ela buscasse o outro extremo do fio que ele tinha amarrado no dedinho, e o levasse para conhecer aquela que seria sua esposa. A bruxa concordou e começou a seguir o caminho do fio.

Esta busca os levou até um mercado, no qual uma pobre camponesa com um bebê nos braços oferecia seus produtos. Ao chegar até onde estava a camponesa, a bruxa parou à sua frente e pediu que ela ficasse em pé.

Ela fez com que o jovem imperador se aproximasse e disse a ele: “Aqui termina o seu fio”. Ao escutar isso, o imperador se enfureceu e, acreditando que era uma mentira da bruxa, empurrou a camponesa, que ainda carregava seu pequeno bebê no colo, fazendo com que ele caísse e que sofresse uma grande ferida na testa.

Ele ordenou seus guardas que prendessem a bruxa e cortassem a sua cabeça.

Muitos anos depois, chegou o momento no qual o imperador deveria se casar, e a corte recomendou que o melhor a fazer era casar com a filha de um general muito poderoso. Ele aceitou e então chegou o dia do casamento.

Sua futura esposa entrou na igreja com um lindo vestido e um véu que a cobria totalmente. No momento de ver pela primeira vez o seu rosto, quando levantou o véu, ele viu que seu rosto tão bonito tinha uma cicatriz muito peculiar na testa.”

A partir da leitura dessa lenda, refleti sobre a nossa jornada e nos muitos fios vermelhos que carregamos, além disso, fiz uma analogia da vida à uma vela.

Quando nascemos, ascende-se uma vela grande e com uma chama potente e luminosa assim, enquanto há luz, há vida. Ocorre que a cada passo a luz se enfraquece um pouco e a vela se consome, mas em decorrências das conquistas, pode reacender-se.

Nosso primeiro laço com o fio vermelho, que também é àquela que nos entrega a vela, é com a MÃE, a quem cabe a proteção, o alimento e o carinho, mas se assim não o faz, diminui mas rapidamente a nossa luz. Além disso, os excessos de zelo, também podem contribuir para a perda da vivacidade luminosa pois, ao invés de protagonistas, nos tornamos Reis, longe do propósito de viver. Há também a simbiose relacional entre mãe e filho, uma relação tóxica onde não é possível descriminar os papéis individuais. Durante os primeiros meses, essa relação é indubitavelmente essencial, mas se mantida por um extenso período contribui para o paradoxo da inversão, onde perdemos a noção do nosso espaço na relação dual.

A segunda relação é com a figura masculina, o pai ou quem se ocupa dessa função, e aí abre-se uma grande e construtiva questão cerca de casais do mesmo gênero.  Porém o foco não esta no objeto e sim na relação, pois insere-se alguém que instiga a rivalidade e a competição, mas que também nos acalenta com segurança e ordem. Nesse caso também pode ocorrer uma relação tóxica, seja com ausências e compensações, alienação ou ruptura de desejos e expectativas.

Em seguida, para além dos laços fraternais, surgem nossas primeiras relações extra familiares, nossos amiguinhos e com eles um conceito de amor mais leve. Na busca por afinidades, podem surgir muitos desafios e assim, diminuir a luz da nossa vela, porém também há a possibilidade de nascerem laços para a vida, pois é através da amizade que escolhemos as pessoas que queremos amar.

Os obstáculos e desafios crescem e com as obrigações escolares, há uma oscilação de luz, pois somos feito espirais, subindo e descendo com imensa velocidade, apoiado a então ingenuidade emocional. É nesse momento também que nos deparamos com o desejo e as descobertas. Momento de transformação, indagação, rapidez e perigos. É aí que laços são afrouxados e relações são envenenadas.

Assim se passa com o período universitário e com o ingresso a profissão. Onde muitas vezes estão vinculados a partida, ao deixar o lar familiar em busca de independência e “liberdade”. Podemos ver a dor dos que ficam e não tem controle sobre o espaço vazio, e a ânsia por aqueles que partem em encontrar seu caminho e construir suas próprias regras.

Um momento da vida que requer atenção e auto controle é a madurez. As obrigações crescem, os desafios são rotineiros e a inserção de papéis é quase sempre inevitável. Lidar com o dinheiro, ou a falta de, com o poder, com a vida de outrem, é uma batalha para manter-se luminoso. Resgates, dores, diversidades, um momento onde tudo se encontra.

Envelhecer, processo natural, que a cada dia tentamos retardar, mas é quando também nos deparamos com a impotência, ao perceber que seu corpo não mais respeita seus desejos de voar, que seus planos podem e devem caducar, que não há nada a fazer diante da morte de quem amamos. Momento em que a vela busca suas últimas fontes de oxigênio para manter-se viva até que então, se apaga.

Mas apagar-se não é o fim! Retomando a lenda do fio vermelho, cujos laços que fizemos ao longo de nossa jornada, permanecerão de alguma maneira, como as gotas que o fogo deixou ao consumir a parafina da nossa vela. Assim, pense nas relações que estabelece e as torne mais prazeirosas e construtivas.

 


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