Um dia fui monge…

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Valência, 25 de maio de 2017.

Quando percorremos muitos caminhos diferentes, encontramos pessoas com histórias espetaculares, que nos faz acreditar que somos personagens de um livro de aventuras. Saber que há tanta coisa lá fora e que a minha jornada é apenas um grão de areia nesta imensidão, me apaixona e me liberta, mas por vezes, também me intriga.

Alguém conhece um país chamado Butão? Sei localizá-lo no mapa e arriscar que sua maioria populacional é Budista, fora isso, uma completa leiga. Agora conhecer um butanês foi demais, ainda que perdido em Valência e que de nada, se parecia a um monge.

Um homem baixo, risonho, piadista, elegante e com uma “baita cabeleira”, daquelas de dar inveja a mulherada. Chegava sempre atrasado as aulas pois, além de adorar dormir um pouco mais após o toque do alarme, também levava horas para arrumar o robusto topete.

Pois então, uma noite, sentados sobre o gramado dos Jardins de Turia, eis que ouço sua história e, por ser incrível, compartilho:

Meu novo amigo butanês está em Valência há pouco mais de 1 ano, e fala um espanhol ótimo. No auge de seus 23 anos descobriu, aqui na Espanha, o que os adolescentes ocidentais conhecem há tempos: a liberdade. Foi aqui que teve seu primeiro contato com a bebida, com as festas, com o cigarro e com as mulheres. Ah, e foi aqui também que, pela primeira vez, soube que tinha tanto cabelo.

Aos 9 anos de idade, por vontade própria, decidiu deixar a família e se “internar” em um Monastério. Algo extremamente comum naquele país. E lá permaneceu por 12 anos, até conhecer um Senhor espanhol, que anualmente visitava aquele local, e resolver aceitar o seu convite para “conhecer” seu país.

Quando perguntei a razão de ter ido tão cedo a um Monastério, apenas me disse que lá poderia ter tudo o que necessitava e que estaria em segurança, material e espiritual, ou seja, sem muitas (para não dizer quase nenhuma) preocupação.

Era uma rotina de meditação e aprendizado, madrugando sempre, com contatos restritos e raspando o cabelo a cada 2 meses. Aí está o motivo de cultivar a cabeleira cuidadosamente agora. Ou seja, meu amigo realmente estava decidido a ser Monge, mas tudo mudou ao conhecer o ocidente.

Hoje ele estuda, está sempre rodeado de gente, descobriu-se um belo e dedicado cozinheiro (de pratos espanhóis) e é o maior “buscador” de garotas que conheço. Se não tivesse ouvido a sua história, nunca podia imaginá-la.  Como ele mesmo afirmou: “tenho duas vidas”; e quando perguntei se quer voltar a antiga, me respondeu: “não, minha vontade é viver aqui na Espanha, com a liberdade e as possibilidades, porém, lá (na minha outra vida), tenho a segurança e a certeza do que esperar”.

E então monge: mais um conto sobre sair da zona de conforto e se aventurar. Não sabemos se vai dar certo, se será a melhor escolha, mas sempre livres para eleger dentre as incontáveis possibilidades.

Prazer em conhecê-lo Sr. “meio” Monge!

PS: o Sr. espanhol responsável por despertá-lo a vontade de voar, está sempre ao seu lado, o apoiando em suas decisões. São ótimos amigos.


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